Há coisas que não se compram. Ficam.

Fotografia assinada por EMÍLIA O’BRIEN

Não é um quadro. É um pedaço da alma de alguém.

Há muitas coisas bonitas no mundo. Objetos elegantes. Presentes caros. Gestos corretos. Mas, de vez em quando, surge algo que nos faz parar.

Que não se explica.

Que não se compara.

Que não se esquece.

Este quadro não é apenas sobre como parece. É também sobre o quanto doeu para ser feito. O quanto foi amado.

Dois anos.

Não dois anos em que “houve tempo”. Mas dois anos em que alguém escolheu tirar do seu tempo.

Do descanso.

Do silêncio.

De si.

A minha amiga Vero não me fez um presente. A Veronica investiu vida. Cada ponto de “ponto cruz” não é apenas um ponto. É uma escolha repetida, centenas de milhares de vezes:

continuo… mesmo que demore.

continuo… porque isto significa algo.

E isso muda tudo. Num mundo onde tudo é rápido, onde passamos por tudo sem sentir, onde o tempo se tornou a moeda mais rara…

alguém parou. E construiu. Em silêncio. Por mim. Por nós.

Ao olhar para este quadro, não vejo apenas três rostos. Vejo confiança. Vejo ligações que não se quebraram. Vejo tudo aquilo que não dizemos, mas que permanece. Estamos ali— nós as três e a nossa amizade— não numa fotografia… mas numa forma que já não pode desaparecer. Porque o fio não esquece. O fio fica.

Eu vivo através dos detalhes. Do sabor. Da estética. De coisas bem feitas. Mas aqui… não é apenas “bem feito”. É levado até ao fim. E muito poucas pessoas levam as coisas até ao fim. Este quadro terá um lugar de destaque na minha casa. Mas isso é apenas a parte visível. Ele terá um lugar em mim, em todos os dias em que eu precisar de me lembrar que existem pessoas que não vão embora facilmente. Pessoas que ficam. Pessoas que constroem, mesmo quando é difícil. Não existe um “obrigada” suficiente para isto. Porque não se agradece um objeto. Agradece-se tempo de vida.

Paciência.

Consistência.

Coração.

Amizade

Não sei se existe uma forma certa de agradecer algo que não pode ser medido. Algo que não pode ser devolvido. Mas sei isto:

Obrigada por cada hora em que escolheste continuar.

Obrigada por cada detalhe que não deixaste ao acaso.

Obrigada por transformares a nossa amizade numa forma de arte.

E, acima de tudo… Obrigada por colocares alma em algo que vai ficar para sempre. Porque há coisas que não foram feitas para passar.

Foram feitas para ficar.

Por tudo o que colocaram aqui… obrigada, de alma cheia, Verónica Silvestre e Lucília Gago.

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