Uma história em construção
Nunca me senti confortável a definir-me. Talvez porque as pessoas não sejam rótulos, mas uma soma de momentos, escolhas e tentativas invisíveis.
Percorri caminhos diferentes, assumi papéis distintos, recomecei mais do que uma vez. De cada lugar levei comigo algo — uma lição, um silêncio, uma pergunta. Hoje não me sinto “formada”. Sinto-me em construção. E acredito que isso diz mais sobre mim do que qualquer título. Trabalho com comida, imagem e emoção. Sou cozinheira, chef e fotógrafa. Ou talvez apenas alguém que procura sentido nas coisas feitas com as mãos e com o coração. Esta combinação de artes escolheu-me antes de eu a escolher. Mantém-me desperta, curiosa, viva. Obriga-me a não ficar parada.
A cozinha foi a minha escola mais dura. Foi ali que aprendi disciplina, resistência, paciência e respeito. Aprendi que a beleza não nasce do conforto e que a excelência exige presença total. As cozinhas profissionais são exigentes. Não são suaves e não perdoam facilmente. Mas são honestas. E a honestidade, mesmo quando dói, fortalece. Para mim, cozinhar está muito próximo da vida. Erras. Repete-se. Tentas de novo. Não existem atalhos reais, apenas pequenos passos dados todos os dias. E se escolhes fazer algo, acredito que vale a pena fazê-lo com respeito, responsabilidade e cuidado por quem vai receber o teu trabalho. O que verdadeiramente me move são as pessoas. Os olhares, as reações, o silêncio depois da primeira dentada. É aí que acontece algo que não pode ser planeado. O sucesso, para mim, não é ruidoso. Não se mede em aplausos. Sente-se nesses momentos pequenos, sinceros, que permanecem. Sinto-me atraída por todos os sabores e culturas, porque contam histórias. E as histórias criam memória. Um bom prato não é apenas sabor. É uma emoção que regressa muito depois do prato estar vazio. Por isso, não vejo a comida como um produto, mas como uma linguagem.
No meu trabalho sigo uma regra simples, mas essencial: sê firme, sê justo e sê amigável. Com os outros, mas sobretudo contigo mesmo. Acredito que a verdadeira força vive no equilíbrio — entre exigência e humanidade, entre rigor e empatia.Não procuro a perfeição. Não acredito nela. Procuro verdade. Procuro momentos bem feitos, com significado. Cada dia é uma tentativa. Cada projeto é uma conversa entre quem sou e quem posso tornar-me.
A fotografia é o final deste processo. É o instante em que o tempo abranda por um segundo. É a prova de que aquele momento existiu. Através da fotografia fecho o círculo entre criação, emoção e memória. Cada imagem é um adeus e um obrigado ditos ao mesmo tempo.
Vivemos num mundo cansado. Apressado. Por vezes caótico. Um mundo que consome rápido e esquece-se de sentir. Por isso acredito que temos uma responsabilidade real: ser mais atentos, mais gentis, mais presentes. Não através de gestos grandiosos, mas de coisas bem feitas, com intenção. Temos o poder de criar momentos que trazem calma. De oferecer alegria sem ruído. De escolher o que deixamos para trás.
Hoje, o lema que me acompanha é simples e claro:
O melhor é o próximo passo
Não o maior.
Não o perfeito.
Mas o assumido.
Aqui não há pressa. Há tempo, escuta e atenção aos detalhes. Um espaço para quem sente antes de julgar, para quem entende que as coisas que ficam não se apressam.

